Bom Caminho. Valença - Santiago de Compostela.

Na ânsia de perceber melhor a nossa condição humana e de entrar em contacto com a linguagem do universo e com a espiritualidade latente do nosso destino, decidimos percorrer o mítico caminho de Santiago. "O Bom Caminho". Aprendemos que a nossa vida é uma viagem, cheia de percalços, equívocos e tristezas mas também de sonhos, alegrias e descobertas e devemos encarar o longo e fascinante amanhecer da nossa existência como a nossa maior recompensa.No fundo, todos somos viajantes e peregrinos numa incansável jornada de sonhos, amor e ódio, perscrutando os confins do cosmos em busca da nossa identidade e da nossa luz interior, que no fim servirá para nos tornarmos mais humanos e mais conscientes do nosso papel, nesta comédia divinal chamada vida. Desta forma partiremos rumo ao desconhecido com um sorriso nos lábios e uma vontade indomável de ir mais além e de por fim entender o nosso destino. O objectivo era fazer o caminho em 6 dias, percorrendo cerca de 120 Km desde Valença até Santiago, as previsões meteorológicas eram optimistas e tudo estava preparado para ser uma experiência inesquecível.    


Roteiro da Nossa Viagem:


Dia 1


Chegámos a Valença de comboio desde o Porto ao fim da manhã e aproveitámos para explorar a cidade, por volta das 13 horas fomos para o Albergue Público de Valença que fica junto ao quartel de bombeiros fazer fila para assegurar o lugar, o Albergue estava fechado mas já estavam muitos peregrinos a esperar. As instalações são recentes e a cozinha está equipada com frigorífico, fogão e forno e quem quiser pode fazer compras no supermercado Continente ao lado. Acabamos por jantar em Valença, menu peregrino por 10 euros, com direito a um creme de leite divinal como sobremesa.

Albergue de Valença: Albergue São Teotónio 
Albergue São Teotónio Local: Valença do Minho
Capacidade: 65 Peregrinos Preço: 5,00€
Entidade gestora / promotora: Agrupamento de Escuteiros 453 Câmara Municipal de Valença

No dia seguinte começava a caminhada.


Dia 2


1ª Etapa – de Valença do Minho a O Porriño (21,7 Kms)

Começou a nossa rotina de acordar às 6 e sair às 6 e 45 da manhã, já com pequeno almoço tomado.A nossa primeira paragem depois de Valença foi Tui. Atravessámos a ponte sobre o rio Minho e fizemos todo o percurso sem problemas. Como saímos cedo acabamos por chegar por volta das 13 horas a O Porriño e desta vez ficamos num Albergue Privado.Ficamos no Albergue Camino Português, fica por 12 Euros por pessoa mas acaba por compensar mais, uma vez que tem boas condições e podemos fazer a reserva com antecedência, desta forma podemos caminhar sem pressa e fazer mais paragens no meio do percurso.Antes de iniciar a viagem estávamos a pensar em ficar sempre em albergues Públicos, cujos preços variam entre os 5 e os 6 Euros por pessoa e onde só conta a hora de chegada, sem reservas. Mas vimos que muitas pessoas faziam verdadeiros contra relógios para assegurar o lugar e para além de perderem a beleza da paisagem não aproveitavam para parar e descansar durante a caminhada. Em Porriño acabamos por ver também vários peregrinos de noite,  desesperados à procura de alojamento, uma vez que não chegaram a tempo do Albergue público e a maior parte dos Albergues privados já estavam cheios. 


Dia 3

2ª Etapa – de O Porriño a Redondela (16 Kms)


Novamente acordar às 6 e sair às 6 e 45 da manhã, já com pequeno almoço tomado. Compramos comida no dia anterior no Supermercado Froiz e assim começamos a caminhada já com energia.Etapa muito fácil de fazer e muito bonita, chegamos bastante cedo a Redondela e acabamos por passear por toda a cidade, por tomar umas "cañas",comer azeitonas  e experimentar as famosas tapas espanholas. 

Albergue “A Casa da Herba”
24 lugares – 12 €
Praza de Alhóndiga 

Dia 4


3ª Etapa – de Redondela a Pontevedra (21  Kms)


Novamente acordar às 6 e sair às 6 e 45 da manhã, já com pequeno almoço tomado.Esta foi uma das etapas mais bonitas, a  paragem mais interessante foi junto à ponte medieval de Pontesampai, onde acabamos por parar para beber uma cidra e comer empanada Gallega por volta das 9 da manhã.
A maior dificuldade é o piso irregular e as grandes subidas mas com calma fizemos todo o percurso sem dificuldade. Chegámos a Pontevedra pelas 12h30 e fomos direitos ao centro da cidade para encontrar o albergue que tínhamos reservado. Para nossa desilusão este foi sem dúvida o pior alojamento onde ficamos, bem localizado mas a precisar urgentemente de obras e com cheiro intenso a naftalina. Como estávamos bastante cansados e todos os albergues para os quais tínhamos telefonado estavam cheios acabamos por ficar, afinal era só uma noite. Em Pontevedra devido a um corte no gás em toda a cidade, só conseguimos ter água quente ao fim da tarde, pelo que aproveitamos para passear um pouco pela cidade e para descansar nas esplanadas.

Casa Sara Hospedaje
Rua alta 17 Pontevedra
15 euros por pessoa ( Não recomendamos)


Dia 5


4ª Etapa – de Pontevedra a Caldas de Reis (26 kms)

Acordamos novamente bastante cedo e fizemos toda a etapa sem problemas, desta vez o Albergue era fantástico e até tivemos direito a um quarto individual e a um enorme jardim onde pudemos recuperar energias e aproveitar o sol. Lavamos a roupa no tanque comunal como antigamente e partimos cheios de energia para conhecer Caldas de Reis.

Albergue Catro Canos
Tivo 58 Caldas de Reis
Telefone 695 582 014
12 euros por pessoa

Caldas de Reis é um lugar muito interessante, com as águas termais como maior apelativo e com uma tranquilidade bucólica e enigmática, remanescente de outros tempos, onde tudo era mais simples.Jantamos no Muiño, digo jantar mas na verdade foi um almoço tardio às 4 da tarde, mas fomos tão bem servidos que já nem precisamos de jantar. Com tudo a que tínhamos direito, Jarra de vinho branco, pimentos padron, chouriço, salsicha e tarte de manteiga. 


Dia 6


5ª Etapa – de Caldas de Reis a Padron (23 Km)


Como sempre, acordamos cedo e começamos a caminhada. Caminho muito bonito e com direito a um albergue com excelentes condições no final da etapa, com direito a quarto individual. Em Padrón fomos jantar bocadillos de queijo e jamón com sangria, ao mítico Pepe.~

Albergue “Flavia”22 lugares – 12 €
Campo da Feira, 13 Tel: 981 810 455


Dia 7


6ª etapa – de Padron a Santiago de Compostela (28  kms)


Esta foi sem dúvida o dia mais difícil, a etapa é bastante longa e acabou por chover durante as ultimas horas, parecia que nunca mais chegávamos...Ao chegar a Santiago de Compostela começamos por comer uma tarte de Santiago para recuperar energias e só depois fomos para a praça em frente a Catedral. Depois de uns minutos em silêncio e quase em lágrimas, fomos para o alojamento. Sentimo-nos despojados e plenos porque precisamos de tão pouco e afinal é tudo tão simples. O que importa é mesmo o Caminho. É andar.


Hotel La Salles
Rua Santa Clara
Santiago de Compostela


No dia seguinte fomos buscar a Compostela( certificado dado a quem percorre pelo menos 100 Km a pé em peregrinação)  estivemos cerca de 1 hora na fila e depois fomos assistir à missa do peregrino que é celebrada todos os dias às 12.Durante o caminho percebemos que há que mudar hábitos que nos são nefastos, começar capítulos novos e entender que nada, mesmo nada, é impossível. Aprendemos todos os dias e temos o dever moral de ser melhores seres humanos. 














As lendas não morrem.

Reza a lenda que nascemos para sermos felizes.
Acordei ofegante e preocupado, com a dicotomia paralisante de uma existência sem sentido...
Pela primeira vez reflecti seriamente sobre a vida, nunca ninguém me tinha perguntado se era feliz, perguntam-me pelo trabalho, se já casei, se tenho filhos, mas será que isso é o mais importante, é essa a verdadeira felicidade? A imaginação é parente do infinito e a felicidade não é um destino, mas sim um caminho, ela é composta de pequenos prazeres e o verdadeiramente importante não são as coisas materiais mas sim as pessoas, mas por outro lado não será legítimo ser altruísta e ter ambições?. Se as coisas são intangíveis, não é motivo para não as querer? Que tristes os caminhos se não fosse a presença mágica das estrelas...
O sentido da vida é perceber que ela não tem sentido e por isso precisamos de nos reinventar e fazer a diferença, encontrar sentido em algo que intrinsecamente não o tem. Desvendar os recônditos abismos do nosso entardecer solitário, inspirar os outros, saber povoar a nossa solidão, no fundo só nos esquecemos do tempo quando o utilizamos e talvez seja esse o segredo, utilizar o pouco tempo que temos para nos tornar-mos imortais, para não sermos esquecidos. O universo conspira em nosso favor e as lendas não morrem... #bomcaminho


Não desistas de quem te faz sorrir.

Estava uma tarde demasiado bela para me entregar à inércia, dirigi-me sozinho até à praia, quando chegei ao sítio do costume, sentei-me, pus a cabeça entre as mãos e desatei a rir. No fundo, acho que só o aspeto poético das coisas me interessa, em última instância apenas há uma linguagem, a da verdade e não podemos parar de a procurar.
Algumas horas depois, o horizonte estava completamente fechado, o vento uivava furiosamente e ria-se da malícia que pintaria as minhas alegrias futuras, a humanidade dormia, era noite. Nessa mesma madrugada, senti de novo o imperioso desejo de estar com ela. Nunca até aquele momento me tinha sentido assim, enquanto sentado me convencia a mim próprio  de que seria uma fraqueza temporária, daquelas que se curam num fim de semana. Mas bastou recordar a curva dos seus lábios, excepcionalmente vivos e arrebatadores para saber o quanto estava enganado.
E finalmente enquanto a beijava, uma enorme vaga de tristeza percorria o meu corpo, ao passo que abria novamente caminho até aos seus absorventes lábios, censurava-me por ter demorado tanto tempo em a encontrar.
Mais tarde comprendi, que ela tinha vindo para evocar aquela história, a única que os bardos cantam, e que os poetas recitam, a verdade é que sempre acreditei nela, mesmo sem a ter ouvido.
Quando tudo estava mergulhado na escuridão, um luar magnífico ilumina a minha expressão e sempre dominado pelo ancestral sonho que me costumava provocar pânico, fechei os olhos e decidi seguir aquela alma intimamente humana, mas que  irradiava uma luz etérea e angelical, ela sorriu e eu fui atrás. 😉

Segue o teu Caminho.

Vejo pessoas à minha volta adormecidas por uma alarmante e despreocupada inércia, não só de ações mas também de pensamentos e de ambições, arrastadas para um destino ordinário de concordância e de aceitação, todos merecemos algo melhor, mas para isso temos a obrigação de tomar as rédeas da nossa vida e de lutar pelos nossos sonhos.   
Demorei muito tempo para compreender que tudo se resume ao "amor", essa visão misteriosa de promessas perdidas, envoltas num oceano de interrogações, essa aparição dantesca de prazer que nos murmura um lânguido e inebriante grito escondido!
Eu já conheci o amor, essa força misteriosa que move o universo, essa jocosa promessa de felicidade que nunca se concretiza, esse trepidante sentimento de urgência que só saciamos ao devorar a presença. Eu ainda acredito nele, no seu poder e no seu fascínio, o contrário seria impensável...
No fundo, o fundamental é a nossa capacidade de compreender e de filtrar o que realmente importa, a felicidade no fundo nunca pode ser um destino mas sim um caminho, o amor faz parte do nosso percurso de aventuras, desventuras, alegrias e tristezas e nunca podemos desistir desta aparentemente inalcançável utopia. Ao esperar o melhor da raça humana, estando ao mesmo tempo cientes do seu pior, não temos outra solução senão partir, sem medo de ser felizes e embarcar nesta fugaz, mágica e deliciosa jornada que é a vida.
O futuro parece sempre tão distante, no entanto a imperdoável cavalgada do destino acelera o seu passo a cada dia, a cada minuto, a cada segundo, a prudência recomenda a que as escolhas sejam feitas, a inércia é a nossa maior inimiga. Citando Jean-Paul Sartre, podemos afirmar que ser é escolher-se, e no fundo o mais importante é isto, escolher, não deixar que ninguém o faça por nós, tomar as rédeas da nossa vida e bem ou mal trilhar o nosso caminho com segurança e esperança num brilhante destino.
O mistério da vida e da nossa existência encerra um conjunto de capítulos que se repetem e nos levam a refletir sobre qual é afinal o sentido deste jogo divino, onde o nosso papel não passa de uma página em branco com vários pontos de interrogação e muitos de exclamação.


Temos de enfrentar esta jornada com esperança, e aproveitar a beleza e a felicidade que os pequenos momentos encerram.
O tempo, esse aliado malfadado da eternidade , não se compadece com quem não persegue um futuro melhor, e por vezes o "Mau Caminho", esse caminho mais difícil, cheio de pedras, obstáculos e privações é a chave para essa ideia utópica a que chamamos Felicidade. 



Começar de Novo.

É fundamental saber quando chegamos ao fim de uma etapa, um dos maiores erros que podemos cometer é tentar ignorar os sinais evidentes de que um ciclo chegou ao fim e prolongar o inevitável.
Encerrar um ciclo, terminar um capítulo ou deixar uma pessoa, pode ser uma das decisões mais difíceis que algum dia teremos que tomar, no entanto a inércia é inimiga do sucesso, temos de descobrir forças para deixar o passado, exatamente onde ele pertence, no passado e  só depois enfrentar o futuro com confiança.
O grande problema é saber quando é o fim de um ciclo, na minha vida tenho tido uma enorme dificuldade em desprender-me do passado e abraçar com todas as forças o amanhã , a verdade é que não é fácil, especialmente quando o passado nos traz boas recordações e quando temos medo do incerto e do fracasso. A estagnação acaba por ser uma reflexão exagerada sobre qual o próximo passo a tomar e ela  pode gerar um mal estar contagioso que nos impede de virar a folha e de seguir adiante.
Não há nada mais ingrato do que insistir em viver uma vida que já não existe, dai a fulcral relevância dos rituais de separação e libertação. Não é por coincidência que todas as sociedades possuem rituais e cerimonias que marcam a transição de uma etapa para  outra, estas manifestações de transição simbólica, são interpretadas pelo nosso cérebro como atos reais, que permitem uma metamorfose completa das nossas atitudes e uma nova postura perante o nosso destino.
Por isso é tão importante deixar ir embora, soltar o antigo, aprender as lições para não repetir os mesmo erros e abraçar o novo, mudar de casa, de cidade, de país, de amor, de amigos, viver sem reservas. Os que forem indispensáveis continuarão a sê-lo, independentemente do rumo que a nossa vida levar.
Cada ano novo é uma oportunidade para filtrar o que queremos manter na nossa existência e renovar o nosso guarda roupa e a nossa alma, ao mudar hábitos nefastos e começar um novo capítulo entenderemos por fim que nada é impossível e que  afinal essa palavra utópica chamada "Felicidade" sempre esteve ao nosso alcance.





Bom Caminho. Valença - Santiago de Compostela.

Na ânsia de perceber melhor a nossa condição humana e de entrar em contacto com a linguagem do universo e com a espiritualidade latente d...